“Por que ler Proust?”



ARTS QA – LITERATURA, POR CARLOS RUSSO




Prezadas Quartières,

O tema que preparei se destina tanto àquelas que com Marcel Proust já possuam intimidade, quanto às que ainda não tiveram a oportunidade de lê-lo. Afinal,

Por que ler Proust?

Todo leitor que se predisponha a ler Marcel Proust deve se preparar para um mergulho no desconhecido; antes mesmo de abrir a primeira página de “A caminho de Swann”, ele necessita ser alertado que penetrará num universo estranho, que algo de novo irá lhe acontecer. Por exemplo, precisa saber que “Em busca do tempo perdido” não significa a busca de um tempo que se perdeu, mas que acabou, embora permaneça vivo em determinadas reminiscências da memória afetiva. Ou, visto de outro modo, significa a busca de um “eu” “morto”, pois a personalidade de Proust é um eu que se dissipa, dissolve-se no tempo sem, no entanto, perder a sua identidade. Esse leitor deverá, ainda, estar disposto em cada parágrafo a se tornar “um leitor de si mesmo”, num processo retrospectivo de reencontro, vivência e que ao mesmo tempo é esquecimento.

Marcel Proust é desses romancistas fundamentais, cujo livro não pode ser abordado de uma forma tradicional e que, após a leitura, possa ser relegado a uma prateleira de estante. Em busca do tempo perdido é uma obra que requer mais de uma leitura e muito meditar. No dizer de Álvaro Lins, ela constitui “a realidade transportada, transformada e transfigurada numa visão estética”, na qual a vida do autor se refletiu.

Seja como for, quem quer que se tenha impregnado de “Em busca do tempo perdido” ficará para sempre assombrado com a polivalência artística de um autor cuja arte era precisamente a mediação entre a satisfação de uma pluralidade de dons e a exigência de sua transcendência. Trabalho de um gênio!

A obra de Proust, de modo particular, não pode ser bem compreendida com o desconhecimento de seu modo de viver. E esse, por sua vez, interessa-nos na medida em que seja a gênese do trabalho do artista, num trabalho semiautobiográfico. Proust viveu em plena vida mundana e, posteriormente, fora dela, confinado, num drama inteiramente ligado à sua obra, que é a evocação de uma vida que nasceu justamente quando ele fugira da própria vida.

Mas quais foram os aspectos mais originais de “Em busca do tempo perdido”?

Uma das condições da genialidade é, dizia Tomas Mann, o fato que o homem de gênio é uma encruzilhada. De todos os lados poderemos chegar a ele, assim como, a partir dele poderemos seguir em muitas direções. Somente o gênio pode desdenhar caminhos que já foram traçados e apenas ele, sem se aniquilar, pode receber e distribuir todos os caminhos.

Marcel Proust possuiu a centelha da genialidade que não se define e não se esgota em uma frase, e nem se extingue em uma única nova contribuição ao mundo das criações literárias. Ele foi um admirável criador de tipos e sua obra permite que um leitor atento fixe em sua mente figuras absolutamente inesquecíveis.

Proust, um incomparável modelador de homens e suas psiquês! Mas ao mesmo tempo, foi também um paisagista perfeito, inimitável, porque nos traz a partir de seu mundo interior os aspectos mais sutis e efêmeros do mundo exterior, uma visão de artista que eterniza as coisas mais imperceptíveis aos nossos sentidos vulgares.

Um subjetivista, dizem alguns. Um impressionista, sem dúvida. Um Manet, um Monet do romance. Não há o que se duvidar. No entanto, se analisado de outro ponto de vista, Proust foi tão objetivo no seu realismo quanto Balzac, e por vezes beirou o naturalismo de um Zolá, dado que suas personagens e suas paisagens respiram por si, têm uma realidade própria. Em toda a obra ocorre uma independência da vida que supera e em muito o reflexo de impressões, que são sempre passageiras. Proust é assim, busca abarcar a totalidade.

Ele dissocia as personalidades, e considera essa dissociação um fenômeno normal e mesmo um elemento fundamental da vida do espírito. O homem, para Proust, é por essência o ser que dissocia o que ele toca e que dissipa o que ele é. Nada permanece estável e uniforme no decorrer do tempo. Tudo no homem se move e se decompõe incessantemente, pois a cada dia nossa alma renasce e reparte. Mas a dissociação é apenas o princípio, pois permanece um elo que mantém a persona presa em seu dissociar-se, por exemplo, Marcel, o narrador, será sempre Marcel, assim como Albertine e Swann serão sempre os mesmos que se transformam e se transportam, dentro da enorme multiplicidade de seus eus, no decorrer do tempo.

As recordações, as ideias, as sensações, colhidas no correr da vida, vivem em nós, independentes, por si mesmas. A maior parte delas será consumida durante nosso viver, outras se deteriorarão pelo esquecimento. No entanto, pequenas parcelas abrigam-se em algum canto de nossa memória afetiva e de lá podem ser pescadas por fatos fortuitos, ocasionais, independentes de nossa vontade e nos trazerem o “tempo reencontrado”.

Na sua “busca do tempo perdido”, quaisquer que sejam os temas da existência humana, neles Proust se engaja, sempre dentro de conceitos sensíveis e pessoais. Assim temos o Proust romancista, o moralista, o naturalista, o crítico de arte, o filósofo, o poeta, o memorialista, o caricaturista, o crítico social. Como poucos, Proust foi um subversivo na literatura e seu perigoso gênio cômico destrói uma a uma as máximas e preconceitos da sociedade em que vivia e que, em seu cerne, por ser humana e inserida no capitalismo monopolista, é a mesma em que hoje vivemos.

Daí a absoluta atualidade da obra proustiana.

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